Coringa – Cuidado Spoiler! Um filme que causa desconforto, incômodo e reflexão.

Ao sair do cinema, eu levei pra casa um nó na garganta e nos meus pensamentos eu levei um furacão.

A melodia da música “I Starded a Joke” do maravilhoso grupo Bee Gees não saiu da minha cabeça um segundo sequer.

A canção, interpretada pelos irmãos Gibb, começa da seguinte forma:

“Eu comecei uma piada

Que fez o mundo inteiro chorar

Mas eu não percebi…

Que a piada era eu…”

No primeiro momento, logo que começamos assistir ao filme, temos a oportunidade de ver aquele palhaço Arthur Fleck, buscando o inocente e doce sonho de trazer felicidade ao mundo triste, melancólico e caótico em que ele vivia.

Um homem que faz uma maquiagem de circo no rosto e força um sorriso com os dedos nos cantos da boca, deixa escapar dos seus olhos uma lágrima.

Dentro de si, apesar de toda consciência de sua insignificância, havia ainda uma pequena faísca de esperança e realização nos palcos.

Ele queria ser visto por todos!

Infelizmente, a vida pode ser cruel com quem sonha e quanto mais ele tentava fazer as pessoas sorriem, mais os nossos olhos de espectadores se enchiam de lágrimas compadecidas por tudo o que aquele humilde e miserável ser humano vivia.

Ele não conseguia fazer rir, a verdade é que ele era o motivo do riso de outras pessoas.

Humilhado, massacrado e violentado.

Imerso na solidão interior, não entendia o mundo. Mas sabia que havia algo de muito errado em tudo o que ele estava vivendo.

Como a bondade de alguém pode ser tão perturbadora para algumas pessoas?

“Sou eu ou o mundo está ficando mais maluco?”

Quantas vezes você também já se questionou da mesma forma?

Eu particularmente, várias e incontáveis vezes.

Você tenta fazer o certo, da forma mais certa possível, mas a vida te bate de uma forma tão pesada e cruel que você começa a questionar:

O que está acontecendo com o mundo e onde iremos parar se as coisas não mudarem? Será que o problema sou eu? O que estou vivendo realmente é real? Eu realmente estou vendo e lendo essa notícia? Isso realmente está acontecendo comigo? As pessoas realmente fazem esse tipo de coisa umas com as outras?

Arthur Fleck era uma piada sem graça, que quanto mais tentava arrancar sorrisos e trazer a felicidade para as pessoas, mais aquele ciclo infinito de desgraças e sofrimento o castigava, não importava o quão ruim a sua vida estivesse, ela sempre podia piorar.

E os questionamentos continuam martelando, é sério que para que algumas pessoas possam sorrir outras precisam sofrer?

Em meio a tantas reflexões, a música do Bee Gees continuava ecoando na minha cabeça trazendo a segunda estrofe da sua sentimental interpretação:

“Eu comecei a chorar

O que fez o mundo inteiro rir

Ah, se eu apenas tivesse visto

Que a piada era eu…”

Aquele riso alto e incontrolável seria um pedido de socorro de uma criança interior que cresceu machucada e maltratada?

Ou seria na verdade o choro disfarçado de um adulto proibido de expressar seus sentimentos mais profundos?

Aquele adulto gentil havia crescido em Gotham City, cidade fictícia da obra da DC, local este que poderia ser qualquer lugar do mundo real submerso na corrupção, violência, abusos dos mais diversos tipos, sujeira e descaso.

Um ambiente projetado para maltratar, de todas as formas possíveis, as pessoas ousadas que lutam para fazer algo bom.

A sensação que temos, ao mergulhar naquele submundo, é que após ser dada a largada da vida o lema de vitória é “que vença o pior tipo de ser humano que alguém venha a conseguir ser”.

O fato é que a vida adora “tirar onda” da cara de quem insiste em fazer o que é certo. E quem é certo acaba por virar piada e mão de obra descartável para saciar os desejos dos estão no poder.

E quando você ler “vida” leia-se “pessoas malvadas”, pois assim como nas ficções o mundo real está cheio delas.

Sejam as que se tornaram assim, após um longo período de dor e sofrimento causados por terceiros, ou os que sempre jogaram o jogo da vida sendo monstruosos, ou seja, já nasceram no topo.

“a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

Outro peso a ser carregado, é que ser diferente, agir diferente ou pensar diferente incomoda a “tranquilidade” de quem aceitou a vida como ela é.

A verdade é que há quem aceite a vida cheia de gente superficial, insignificante, abusiva e cruel.

As pessoas aceitam o que têm, agradecem pelo pouco que recebem e seguem o padrão de comportamento que esperam que elas tenham.

O quanto pode ser devastador para a sanidade de alguém mascarar, anular ou não falar sobre os próprios sentimentos?

Viver sendo ignorado socialmente e rejeitado afetivamente pode contribuir para despertar os gatilhos de loucura ou até mesmo de violência em uma pessoa?

Qual o peso de uma vida desprovida de significado na manutenção da sanidade mental de alguém?

“Eu olhei para o céu

Passando as mãos sobre os meus olhos

E eu caí da cama

Machucando a cabeça com as coisas que eu disse”

Além do drama na sua busca por um lugar nos palcos do humor, Arthur Fleck vive um drama pessoal que envolve o seu passado, ou seja, sua infância e suas origens.

Arthur Fleck era um bom filho que cuidava de sua mãe com todo amor e carinho, fazendo tudo o que podia para que apesar da pobreza ela tivesse conforto, companhia e afeto.

Ele tinha na figura materna a sua maior fonte motivadora: “Minha mãe sempre me fala para sorrir e fazer uma cara alegre. Ela disse que eu tinha um propósito. Trazer risos e alegria ao mundo.”.

Mas algo inesperado acontece e logo ele se vê obrigado a buscar sua verdadeira história. O que o leva a “abrir um baú” cheio de dores, traumas mentiras e sofrimentos.

Naquele momento, ele já havia perdido o emprego que por pior que fosse, lhe dava alegria e lançado uma pequena faísca do seu instinto assassino num ato de autodefesa.

É quando ele percebe que não tem mais nada, absolutamente nada!

E como se não estivesse tudo acabado, a vida ainda acha tempo de fazê-lo de piada mais uma vez.

Enquanto está no hospital cuidando de sua mãe doente, ele vê que um vídeo de seu show foi parar nas mãos de Murray Franklin (Robert de Niro), o apresentar de TV que ele mais admira.

Imediatamente Arthur (ou o que sobrou dele) se alegra. Seria a chance da realização do seu sonho no Stand Up?

Lógico que não!

Seu vídeo foi ridicularizado, sua imagem denegrida e sua atuação no mercado de humor desprezada. Ele não era um bom comediante, ele era a verdadeira piada…

Naquele momento ele percebe o grande perdedor que ele é no jogo da vida. Ele percebe que até o que parece bom vem carregado de maldade e que as pessoas não dão a mínima para gente como ele.

É quando ele apaga o seu passado e vive o seu último resquício de dor e sofrimento, experimentando um leve “arrependimento” e “lamento” em sua casa…

Até que ele recebe a visita de seus amigos, o que o faz sair da suposta “tristeza reflexiva” e o clima de tensão do filme é quebrado com uma pequena dose de humor negro, durante a cena em que o anãozinho tenta ir embora de sua casa (impossível não rir).

A música do Bee Gees sendo perfeita para o filme traz a seguinte estrofe para fechar:

“Até que eu finalmente morri,

O que fez o mundo inteiro começar a viver.

Se eu apenas tivesse percebido que a piada era sobre mim…”

Morre Arthur Fleck, e nasce Coringa.

Cabelo verde, terno extravagante. Chega de sofrimento!

Dancinha nas escadas. É hora do show!

“Eu pensava que minha vida fosse uma tragédia. Agora me dou conta de que é uma comédia”.

Coringa enxuga as últimas lágrimas de Arthur Fleck no camarim do programa de TV, que tenta fazê-lo de piada mais uma vez, e se prepara para o seu grande e surpreendente momento.

Um desabafo emocionado e um desfecho inesperado. O mundo lá fora em euforia com o novo ídolo.

Ele finalmente consegue ser visto, ouvido e percebido.

O ator Joaquin Phoenix nos deu, com a sua maravilhosa e impecável atuação, a oportunidade de ver o temido Coringa nascer, sendo agraciado com um magnífico roteiro.

Ser humilhado e maltratado não justifica atos de violência, mas o filme nos mostra os riscos que corremos deixando as coisas no mundo malucas da forma que estão.

Acredito que todos os que assistiram ao filme, já estejam imaginando quem seja o ganhador do Oscar de melhor ator do ano de 2019 e acredito ainda que Joker (Coringa) tem todo potencial para ganhar o Oscar de melhor filme.

O filme termina com uma grande possibilidade de continuação.

Se sim, espero que o Coringa de Phoenix, tenha um Batman à sua altura no quesito nascimento e interpretação.

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6 comentários sobre “Coringa – Cuidado Spoiler! Um filme que causa desconforto, incômodo e reflexão.

  1. Perfeita descrição do filme! Parabéns ! Realmente m filme que nos faz pensar o que tem por trás de um sorriso. Que venha o Oscar para Joaquim Phoenix !

  2. Reflexão de alto nível. Poucas vezes na vida tive a oportunidade de ler um conteúdo com tantos valores éticos e que agregam tanto valor humano. Sinto esperança ao ver alguém tão empenhada em melhorar o mundo. Conteúdo que pode transformar almas e gerar novos paradigmas. Me fez pensar num mundo novo, paltado no propósito em meio a uma quarta revolução industrial.
    Não a conheço, mas senti muito orgulho de vc.
    Parabéns!

    1. Olá Maria Auxiliadora!!!! Que linda a sua mensagem, você não imagina o quanto motiva o meu trabalho e esforço para continuar escrevendo e trazendo conteúdos relevantes para todos os que gostarem do meu trabalho. Um forte abraço <3

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